
Me interessa a pequenez dos detalhes, imaginar o avesso das coisas, esculpir com a linha como se eu tivesse a mesma proporção que ela, como se os furos de agulha fossem enormes túneis que me acolhem. Me transporto para os detalhes da imagem ao bordar, me faço pequena para caminhar em cada parte, percorrer cara espacinho e ao furar o papel eu vou da imagem ao seu avesso, entro e saio com todo o meu corpo, ao inscrever as linhas na imagem eu me inscrevo inteira nela, caminho, mergulho, me refaço. O avesso do bordado é uma escrita paralela, não dita, velada, vou da casca a polpa de cada palavra, no âmago do ser que cada linha remete através da historicidade do bordado, da memória das coisas, do inconsciente que não é só o meu, ele está na imagem, no bordado, no ser que tudo habita. Ao trilhar caminhos na mata percebo que sou pequena, me vejo imersa no meio das árvores, da vegetação, me sinto acolhida pela correnteza das águas de cachoeira. Ao bordar a questão da pequenez, do detalhe retorna, sinto quase todas as vezes como se eu entrasse pelo buraco da agulha como quem entra em portais naturais feitos entre duas árvores que têm suas folhas entrelaçadas uma na outra numa floresta. Magicamente me vejo penetrando esses portais e sendo transportada para o outro lado do papel. Percorro como a formiga que anda sobre a fita de moebius e descobre que o dentro é o fora e tudo faz parte de uma mesma superfície. Marco o caminho da linha com a agulha da frente ao avesso, da pele ao organismo do ser, da superfície às profundezas de cada corpo. Nessa caminhada cotidiana do bordado eu teço meu caminho imaginário do corpo à linha, da imagem ao seu conteúdo. O espaço do papel é a minha memória ativada, pulsante, meu feminino vem à tona, inscrevo árvores no interior do espaço da folha de papel fotográfico e sobre a imagem do corpo de várias mulheres. Ao furar a superfície eu tento exaustivamente ir do topo às profundezas de cada uma delas colhendo frutos, raízes, sementes, água em cada imersão da agulha eu mergulho junto tentando resgatar uma língua perdida, esquecida, do conhecimento sobre a terra, sobre os símbolos, sobre os seres vegetais e a nutrição de cada um deles. Rego essas fotografias com linhas coloridas, enraízo o que deve fincar e deixo ir o que deve ser levado pelo ar, pela chuva, pelo corte (por isso algumas são fragmentadas) o que tem a mais sempre é podado afinal é preciso podar também. Bordo tendo consciência plena do meu tamanho que pela primeira vez na vida penso que é pequeno, da miudeza dos detalhes, da prática incessante de mergulhar em cada furo da agulha.
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Penso sobre o cultivo diário do bordado, da feminilidade e sua relação intrínseca com a natureza. Sobre a potência das trocas, das vozes, do afeto. Sobre o tempo de construção das coisas, da imagem, da espera pelos reencontros. O ir e vir do gesto, o furo, os atravessamentos que a imagem pode fazer sem a pressa das redes, da internet, da ansiedade. Dou tempo ao tempo, tento sentir mais as reverberações que cada fotografia de cada uma das 30 mulheres que fotografei de março de 2019 a janeiro de 2020 para essa série me traz. Cada vez que me debruço mais sobre esse trabalho durante o processo de edição e impressão das fotos até o momento em que começo a bordá-las e a entender que o instante, o presente é de fato tudo que temos. Tenho encontrado suporte em autores que se mostram como pilares enquanto construo o meu trabalho. Bachelard, sem dúvidas tem um lugar muito importante. Com isso, livros como A poética do devaneio, A água e os sonhos, A intuição do instante, A terra e os devaneios do repouso e da vontade, A psicanálise do fogo, O ar e os sonhos me auxiliam no despertar da relação entre o feminino e os elementos da natureza. Em A água e os sonhos, por exemplo, há um capítulo inteiro sobre A água maternal e a água feminina. Mas encontrei Bachelard por acaso, numa dessas coincidências que tem tudo a ver com a maneira como nos sentimos em relação à temas muito íntimos e específicos.
Antes desse encontro oportuno com a obra de Bachelard eu já tinha sentido uma necessidade interior intuitiva de pesquisar o feminino e associá-lo aos fenômenos da natureza e alguns dos meus bordados já vinham sendo perpassados por temas como esses. Enquanto bordo percorro caminhos sigo, paro, sinto e penso. Dou meia volta e me afasto. Durante muito tempo utilizava essas duas linguagens separadas uma da outra: o bordado e a fotografia. Mas desde que tive a oportunidade de juntá-las senti que algo mudou. O bordado na fotografia para mim foi uma revelação, o encontro desses dois saberes tão potentes, que vão se revelando diante dos meus olhos, aos poucos. Sinto às vezes que o processo e os materiais que a gente escolhe para produzir nosso trabalho, no fundo, vêm de uma sabedoria anterior, ancestral. Como se os próprios materiais se pusessem para nós, emanassem uma energia para serem utilizados como se ao olharmos para eles, de alguma forma eles também nos olhassem. Sigo com bordados em processo e fotografias, sigo olhando para essas duas linguagens e fazendo obsessivamente exercícios diários na tentativa constante de não só decifrá-las como antigos palimpsestos, mas de reescrevê-las, juntas como nunca antes foram.
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E é por isso que meu processo de bordar sobre papel anda junto com o meu processo de escrita no cotidiano. Minha reflexão é constante, as vezes até maçante pois bordo incessantemente, todos os dias e até meus braços não aguentarem mais. No entanto a escrita vem como um respiro, um afago, o calor de um abraço que me coloca de volta no meu lugar de origem, de encantamento, de prazer. Bordar também é lembrar e desde que comecei esse processo tenho tido sonhos muito intensos sobre mulheres que se reúnem de formas diversas. No início eram sonhos bem estereotipados com risadas de bruxas lá no fundo. O último que tive foi muito libertador. Sonhei que entrava numa galeria, na inauguração de uma exposição. De um lado tinha uma grande instalação com lãs e fios vermelhos e em frente tinha um quadro, uma pintura a óleo eram várias mulheres pintadas de frente, retratos mesmo, como se elas fossem de uma mesma "turma". Mulheres de todos os tipos, jeitos, formas e cores estavam nessa pintura que levava uma moldura grossa dourada daquelas bem clássicas e antigas. Eu parava na frente dessa pintura e ficava olhando. Me lembro perfeitamente da cena. Todas as mulheres do quadro no lugar de olhos tinham furos de agulhas. Na hora que eu percebia ao invés de me assustar eu começava a dançar na frente do quadro. Como uma criança, era uma dança bem livre, lúdica que eu fazia para essas mulheres sem olhos. De alguma forma eu as homenageava com a minha dança. Eu sentia que elas eram as minhas ancestrais.
O silêncio, o vazio e a ausência sempre foram a força motriz do meu trabalho. Minha dissertação de mestrado chamou-se “O desejo de morar no silêncio das coisas” e sempre foi muito claro pra mim que esses três pontos têm nome e sobrenome. Meus pais eram surdos e durante o mestrado foquei minha pesquisa na minha experiência que a vida toda se dividiu entre duas casas e duas línguas, o português na casa dos meus avós maternos e a LIBRAS na casa dos meus pais. Hoje eu percebo que a minha questão está enraizada na minha relação com a minha mãe e a falta que ela me faz, já que meu trabalho começou a ir para o mundo efetivamente em 2013, o ano que ela faleceu. De alguma forma a sua ausência, que esse ano completou 7 anos, me fez perceber que meu retorno para uma técnica de arte têxtil como o bordado tem um precedente na minha memória de infância. A linha sempre foi um fazer muito característico da minha mãe, a costura, o bordado, o crochê sempre estiveram presentes no meu dia a dia quando eu era criança e hoje eu planto essa presença na minha casa para de alguma forma me nutrir com as linhas fragmentadas que me restaram dessas memórias. Me lembro de quando pequena ficar observando aquela dança linda de linhas que só as mãos expressivas e ásperas da minha mãe tinham. Expressivas porque eram o objeto da sua linguagem, ela se expressava no mundo com as mãos, devido a sua surdez. Foram das suas mãos que me vieram toda a compreensão sobre o mundo, elas se transformavam em nossas palavras, símbolos, dialetos. Ásperas porque eram mãos que lavavam, passavam, cozinhavam e brigavam muito por um espaço de fala numa casa sempre tão patriarcal e machista. Sou fragmento das minhas memórias, imagens, olhares, de frases não ditas, amores esvaziados pelo tempo. Sinto saudades daquela que já fui quando outrora ela se foi. Recordo com amor a menina que eu era e que agora traça seu próprio caminho, com a sabedoria vista na trama de linhas que ela me passou de mãe para filha. Linhas, traços também vistos no meu corpo, estou cada dia mais parecida com a minha mãe e mais perto de reencontrá-la. Fico aqui com a sensação do seu abraço que ainda existe no meu peito em cada xícara de café que tomo e lembro do quanto ela gostava. As linhas pela casa, as caixas de agulhas mantêm pulsante a sua lembrança. Guardo hoje na minha casa o último crochê que ela fez ainda inacabado e conectado no seu último rolo de linha, nunca tive coragem de termina-lo, de cortar essa linha. Guardo, então, junto dos meus novelos de linha mantendo a sua história do lado da minha.
Bordar como uma curandeira é uma ideia que tem me atravessado. Tenho lido e visto algumas palestras online sobre a retomada da memória a respeito da prática e do arquétipo de curandeiras na mitologia, no folclore, nas histórias antigas. Diz-se que a "curandeira vai bordando cada ser como uma guardiã do afeto, da ternura e das pequenas coisas que esse mundo atual tirou de nós" (palestra com o título 'a curandeira hoje' de Trinidad Aguilar) que complementa: "A curandeira é precisamente aquela que borda cada ser. É aquela que vai lembrando o que cada ser precisa ser: acolhido, aconchegado novamente com uma sabedoria altamente pura e bela que é a ternura, a gentileza e a capacidade de amar. É ser uma facilitadora, um grande abraço." Clarissa Pinkola Estés é outra autora que também é pilar para a minha pesquisa. No capítulo sobre o conto da mulher-esqueleto descreve a curandeira como "La Inocenta" e diz que "ser inocente significa ser capaz de ver com nitidez qual é o problema e corrigi-lo. Essas são as poderosas imagens por trás da inocência. Ela é considerada não só uma atitude de evitar o dano aos outros ou ao próprio self, mas também a capacidade de curar e recuperar a si mesma (e aos outros)." P.178. “Mulher que corre com os lobos”. Não levo isso com literalidade, mas vejo na prática que cada vez que uma das mulheres que fotografei se vê bordada há algo que causa um movimento dentro dela, não posso dizer que necessariamente seja uma cura (isso cada uma delas que teria que me dizer) mas sinto que há uma reverberação positiva que faz com que cada uma se sinta e se olhe de maneira diferente após o encontro com elas mesmas no meu trabalho que através das cicatrizes, fendas, furos, bordas, como uma colcha de retalhos vou remendando, suturando, compondo. Paro, alinhavo, continuo a dança da agulha do ir e do voltar, a busca por texturas, escritas sem fala, gestos sem movimento, narrativas imagéticas. Na solidão do trabalho artesanal me refaço, me organizo. Busco minhas raízes no fazer. Ao bordar eu relembro e me refaço. Vou tateando o tecido como uma criança que tateia pela primeira vez a terra, meus pés descalços sentem a temperatura de raízes, linhas, escritas que não são tudo o que encontro enquanto cavo incessantemente novos caminhos. Revivo memórias são pequenos fragmentos de Déjà vu espalhados em detalhes muito específicos da floresta, do corpo, do papel fotográfico, sensações e certezas de que já fiz esse mesmo caminho antes. Os enlaces do passado modificam meu futuro. Descubro uma floresta dentro do meu peito.
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